Posted by: Aba Cohen | March 4, 2009

sobre o “fluir” do tempo

 

 Recentemente fui entrevistado pela TV Globo que me indagou sobre “a razão física de o tempo estar passando cada vez mais depressa”; concordei quanto ao fato de todos nós temos essa sensação, mas acrescentei que a justificativa nesse caso não vem da Física: Complementei sugerindo que um dos fatores para essa sensação se relaciona à rapidez com que a tecnologia evolui, com máquinas de processamento e comunicação resolvendo tudo praticamente à velocidade da luz, trazendo um contraste muito grande com a velocidade com que os meios de transporte de matéria (massa de repouso não nula), e nesse caso nós mesmos, nos locomovemos. Isto faz com que determinados processos andem muito mais lentamente do que outros e certamente “nossa lerdeza” diante de tantos outros processos extremamente rápidos do nosso dia-a-dia pode nos levar a essa “sensação de falta de tempo”. Somando a nossa lentião com a possibilidade de deixarmos várias tarefas para serem resolvidas pelas “máquinas fantásticas” -que às vezes dá vontade de quebrá-las quando resolvem ficar só um pouquinho lentas, isto quando não resolvem travar….- temos um contraditório que gera essa angustia da “falta de tempo para tudo”.

 

Mas indo agora para a Física, o que podemos dizer a esse respeito é que o tempo não é “uma substância” mas tão somente um mero parâmetro que mede a evolução dos fenômenos. Posto isto, poderíamos até pensar que o tempo não pudesse ter flexibilidade. O fato é que esse “parâmetro” é flexível sim! Essa flexibilidade vem da Teoria da Relatividade Geral, de Einstein, que demonstra a REAL POSSIBILIDADE da dilatação do tempo em circunstâncias especiais (ou melhor o evoluir mais lento de processos associados) a TODOS os fenômenos que estiverem presentes em um sistema acelerado relativo a outro, tomado como referência. No meu curso “Einstein no Terceiro Milênio”, que a UFMG oferece a todo o público – universitário ou não, demonstramos o porque desse fenômeno, capaz de garantir, por exemplo, as tão decantadas viagens no tempo. Também veremos assuntos relacionados a Mecanica Quântica e diversos outros temas de interesse do “cidadão do século XXI”.

 

Vemos assim que o parâmetro TEMPO não tem um “fluir”, mas se pudermos usar essa expressão, ele pode “fluir” mais lentamente (e não mais rapidamente) se observado de fora (ou seja, por alguém que não participa) de um sistema -pessoas, objetos, coisas etc- acelerados. Como nós estamos em um sistema (Planeta Terra) de baixíssima aceleração (se somamos todas as acelerações a que estamos submetidos, o valor não diferirá muito da aceleração da gravidade, g = 9,8 m/s2) os retardos no “fuir” do tempo são de pouca importância, em relação a referenciais não acelerados, onde o tempo “flui com a celeridade padrão”, se é que isso existe. Mesmo assim, os sistemas GPS (Global Positioning Systems) que têm de sincronizar informações de modo preciso, usando “relogios” presentes tanto na superfície da Terra quanto nos satélites de comunicação, por estarem submetidos a gravidadesw diferentes, precisam de fazer permanentes correções (do “fluir” do tempo em um em relação ao outro) para não darem informações erradas. Além desse “lento fluir” por conta da gravidade, soma-se a questão do atrito das marés, que faz com que a velocidade de rotação da Terra diminua frações de segundo a cada século, tornando o dia cada vez mais longo. Esses efeitos mostram que o “fluir” do tempo é cada vez mais lento, se pudermos assim dizer, contradizendo a “sensação de encolhimento do tempo” que sentimos neste mundo cada vez mais tecnológico.


Responses

  1. O “fluxo” do parâmetro tempo não poderia ser interpretado como uma representação verbal?

    Com que rapidez o tempo flui? Todos sabemos a resposta: segundo a segundo.
    Será?
    A velocidade é definida como a distância percorrida por unidade de tempo. Como o tempo pode se mover “no tempo”?

  2. Olá Leo, uma vez mais nos falamos neste espaço. Voce que é especialista na Teoria da Relatividade e nas questões do “tempo” (com aquele texto interessantssimo que temos que discutir) sabe melhor do que eu da não existência de uma “substância” – tanto que usamos aspas para o “fluxo”. Essa sua colocação, quanto fala da representação verbal, coloca o Ser Humano como elemento determinante dessa concepção “fluida”. E nós sabemos que na FísicaModerna o OBSERVADOR é parte do processo: Ele define, em muitos casos optando por um ou outro instrumental, que propriedade irá ver, se onda ou partícula (usando sua linguagem). Tmbém com o tempo é assim, nós sabemos bem: que tempo “fluirá”mais depressa ou mais devagar? O meu tempo próprio ou o tempo do astronauta?

    Finalizando, sabemos bem que velocidade pode ser usada na definição de tempo, e a velocidade da luz sendo uma referencia um tanto rebelde aos conceitos clássicos, produz os entortamentos do tempo e do espaço. Talvez seja uma maneira de ver o tempo mover no tempo”, tanto que os 2 irmãos gemeos, sem perceber, verão que um está mais velho que o outro de modo mágico (sem aspas) pois naquele caso (dos gemeos) o tempo se “deslizará” diferenciadamente para cada um.

  3. Adoraria fazer o curso, mas às 18h é difícil para quem trabalha à tarde. Será que não teremos uma versão do curso à noite, para atender a todos? Abraço.

  4. Olá Bernardo, agradeço o seu interesse. Essa questão do local e horário é bastante complicada. Quando decidimos pela 4a-feira, no ICEx e as 18hs, tres critérios pesaram
    -As 4as-feiras de março e abril não terão nenhum feriado (8 aulas seguidas)
    – O ICEx é o local onde temos mais condições de apresentar demonstrações, visitas a laboratorios etc – além de muitos dos candidatos já estarem por aqui, mas vários de fora vêm ao campus.
    – Finalmente, respondendo a sua pergunta, optamos pelas 18hs pois há muitas pessoas que terminam o expediente por volta das 17:30 (parece não ser o seu caso) o transito na Av Antonio Carlos no sentido centro-bairro é tranquilo até as ~ 18:15, se complicando progressivamente a partir desse horário; soma-se a isto um grande numero de pessoas que termina suas atividades no Campus por volta dessa hora.

    Concordo com voce de que aulas no centro, num horário como 19:00 seria mais apropriado. Informo que há a perspectiva de esse curso ser levado no centro, a noite e em local ainda indefinido. Peço que fique atento a este blog pois em acontecendo eu anunciarei aqui.

  5. me interessa demais esse curso, pena que sera no mesmo horario das minhas aulas na ufmg.

    voces pensam em ministralo novamente em horarios ou dias diferentes?

    • Bruno, clique na aba “Curso Einstein no Terceiro Milênio-2009” que aparece acima e veja minha resposta ao Vagner.

  6. Muito bem, escolha as armas, local e data para nossa discussão. Sugiro apenas que seja em um “buteco” e que as armas não passem de um chopp e algum tira-gosto.

  7. Já compreendi o conceito de que “o Tempo não existe” além de uma abstração para o “tic-tac” das mudanças ocorridas no Universo.

    Mas como medimos o Tempo através de “uma contagem da mudança do estado das coisas” podemos dizer que “o Tempo flui na Velocidade da Luz”.

    Aliás, sabemos a quanto tempo o Universo “existe” devido à luz que nos chega hoje.
    Se o tempo não passar na velocidade da luz, estaremos contando a idade do Universo de maneira errada.
    É algo a se pensar…

    Professor, aqui vai uma foto que fiz da Cachoeira e a Gravidade.

    • Luiz, a cachoeira mostra a inexorabilidade do “fluxo” do tempo e o poder da gravidade: Voce capturou um momento em que essas 2 coisas atuavam e conseguiu parar sua ação – pense nisto. Quanto ao “tempo ‘fluir’ à velocidade da luz”, eu NÃO posso te abonar: No meu curso “Einstein no Terceiro Milênio” nós mostramos que um mesmo fenomeno pode ser medido em tempos diferentes por observadores em estados de movimento diferentes. Isto mostra que o tempo é relativo (a quem mede). Se a velocidade da luz fosse “O parâmetro”de medida do tempo, ele seria absoluto, como “c” o é. Quando diz que o tempo “passa na velocidade da luz”, voce o compara a um objeto (ou raio de luz ou algo similar) mas o tempo não é uma substancia, é apenas um parametro (náo absoluto) de referencia de como se desenvolvem os processos. As “coisas sim, se movem” o Tempo é algo que criamos para mensrar esse evoluir. É uma invenção nossa, para medir o andamento dos acontecimentos.

      Aba Cohen – Continue visitando e divulgando o blog e meu curso.

  8. Muito bom o texto, e o conceito desenvolvido aqui deveria ser mais divulgado na mídia, pois existem postagens na internet dando conta de que o dia atualmente tem apenas 16 horas, ou seja, o tempo passa mesmo mais rápido, o que se deve à famosa ressonância Schumann. O pior é que tem gente que leva tal informação a sério, aumentando a incompreensão do assunto, por si só bastante hermético.

  9. Alias, Professor Cohen, sobre seu curso E3M, é presencial? O material didático encontra-se disponível para venda? Qual o nível de matemática requerido?

    • Olá Gil, poucos são os que entendem que o tempo não é um “fluido”. No curso E3M demonstramos que matéria e Geometria (espaço-temporal) se fundem, tendo surgido de modo sincrético no Big-Bang. Embora p´rofundo, do ponto de vista conceitual, o curso exige uma matemática bem simples (Teorema de Pitágoras dá conta dos passos mais “difíceis”, como a dedução do Fator de Lorentz). O material é entregue aos alunos inscritos e está incluido no custo. No momento aguardamos definições na UFMG para lançar como atividade de extensão. Caso tenha interesse em receber notícias da abertura das inscrições peço que me envie um e-mail com os dados que aparecem no anuncio do curso.


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