Posted by: Aba Cohen | January 30, 2011

Discussão sobre o destino

  Para saber sobre o Curso Einstein no Terceiro Milênio, clique aqui ou na barra indicativa acima

 

Na 5a-feira, dia 27/01/2011 a bem sucedida apresentadora mineira, Roberta Zampetti, reuniu em seu programa Brasil das Gerais – Rede Minas, Belo Horizonte,MG- cinco convidados para discutir o tema “Destino existe?”. Tive a honra de ser um dos participantes dessa apresentação, a convite de seu produtor Cláudio  Henrique Vieira, e trago aqui minhas impressões sobre o programa e minha colocação -como físico- sobre as questões do determinismo e do indeterminismo. Voce pode assitir o programa clicando aqui para a parte 1 e aqui para a parte 2.

Os 4 outros convidados, foram o renomado médico geriatra e gerontologo, Dr Antônio Roberto Casarões, defendendo uma linha mestra bastante lúcida em que “os acontecimentos na vida são basicamente  frutos do acaso e por isto devemos saber administrar essa variável”; o analista de sistemas Fernando Augusto Medeiros Silva (FAMS) que defendeu uma posição crítica e inteligente quanto a insustentabilidade de “um fio condutor a nos guiar pela vida afora”; a nutricionista Gláucia Braga Hubner Gonçalves que relatou de modo claro e racional a respeito de coincidências ocorridas em sua vida que muitos poderiam definir como “mera sorte” e outros como “obras do destino”, que ela mesma questionou e também o numerólogo Paulo Bernardo que se fixou num quadro rígido e pré definido quanto a todos os fatos ao nosso redor.

Roberta Zampetti conduziu a discussão com toda a inteligencia, graça e perspicácia que lhe são peculiares e na essência o programa se desenvolveu tendo como pano de fundo as “incertezas” dos acontecimentos associadas às ações do próprio Ser Humano (como individuo e em especial como Ser Coletivo). As aspas na incerteza são minhas e relato a seguir minhas considerações a esse respeito.

Para mim e a maioria dos convidados ficou evidente a inexistência de elementos pré-concebidos capazes de levar um determinado indivíduo a seguir uma trajetória pré-definida. Memo que as posturas exotéricas e as numerologias (são várias, incluindo a já referida)  pretendam lançar um “ar de ciência”, elas representam um traço de misticismo não inteligível e capaz de atingir pessoas supersticiosas e menos preparados para uma analise crítica dos fatos.

Como físico, apresentei no programa os dois momentos que levaram ao auge essa Ciência (a Física), surgida com Galileu há 4 séculos, que tantos benefícios trouxe e traz à Humanidade. O primeiro momento, com o Deterninismo Clássico, quando imperava total segurança nas Leis da Física Newtoniana. Com ela veio o progresso da Revolução Industrial e a 1a Era das Comunicações. Essas certezas absolutas foram muito bem representadas no século XVII pelo chamado “Demônio de Laplace”: uma mente que, em conhecendo todas as posições e velocidades de todas as partículas do Universo e, dotada de capacidade de cálculo, saberia inferir o passado, presente e futuro. Essa Física autosuficiente e infinitamente Determinística  não existe mais. A Física evoluiu para uma postura mais condizente com a Realidade dos fatos. A partir do Século XX passamos a conviver com o Indeterminismo em que, por limitações do próprio Ser Humano passamos a lidar com  (medir, sentir, definir) os elementos da Natureza como eles se nos apresentam, e que nos levou a trabalhar com elementos estatísiticos em que o acaso passou a fazer parte inerente da própria Ciência. Esses elementos estão embutidos na Física Quântica, que Einstein ajudou a inaugurar e praticamente sozinho construiu entre a 1a e 2a década do Século XX e que com o advento da Meanica Ondulatória, ele próprio passou a combater a partir da década de 1920 -era a fase da denominada Mecânica Quântica em que o Princípio da Incerteza de Heisenberg tem papel de destaque.

Hoje lidamos tanto com a Ciência Determinística associada às Leis da Física Clássica, que funciona de modo (ainda hoje) maravilhoso na fabricação de um sem número de dispositivos e edificações e também da Relatividade Especial e Geral de Einstein (também determinística e que ninguém contesta), como também lidamos com o Indeterminismo Quântico, capaz de nos premiar com todas as modernidades deste Terceiro Milênio.

Enfim, a Física, como uma Ciência que busca ser mais próxima da Realidade, nos mostra que podemos trabalhar com um grande número de variáveis que conseguimos controlar com grande precisão; mostra também que o acaso está presente na Natureza e em nossas vidas e não há como eliminar essa componente, com a qual temos que conviver. Há no entanto um outro elemento que o Ser Humano, em sua vida comunitária TEM que estar atento: Os “acasos” provenientes de acidentes da Natureza são fatos muito mais previsíveis e evitáveis do que poderíamos imaginar. Um exemplo está na soma de atos individuais capazes de aumentar o aquecimento global, já que  ele é susceptível de nosso controle, podendo fazer-nos evitar catástrofes como as ocorridas na Região Serrana do Estado do Rio. Como disse com precisão a Roberta Zampetti, nossa mãozinha tem muita responsabilidade nos ditos “fenômenos imprevisíveis”  desta catástrofe assim como de muitos outros eventos que ainda virão e que “comandam o nosso destino”. Desta forma, é uma atitude muito simplória atribuir a causas místicas ou, pior ainda,  “culpar” ou “deixar nas mãos de Deus”, todos os efeitos cuja origem e consequências são fruto de nossa própria irresponsabilidade. Nos cabe agir com inteligência, para garantir um futuro melhor, deixando Deus para uma discussão de maior profundidade.


Responses

  1. Olá, professor.
    Gostaria de ter visto esta edição do “Brasil das Gerais”. O assunto abordado é fascinante. E o alto gabarito dos debatedores é inquestionável.
    Provavelmente este programa deve ter sido gravado. Seria possivel obter uma cópia?
    Como proceder para obtê-la?

  2. Ví o programa “O destino existe?” e quero parabenizá-lo pela sua ótima participação.
    Fiquei realmente surpreendido pelo posicionamento do geriatra Dr. Antônio Roberto Casarões. O livro citado por ele “O andar do bêbado” que versa sobre o acaso é do físco Leonard Mlodinov. (Procurei para comprá-lo, mas na oportunidade estava esgotado).
    Na seqüência do programa, várias entrevistas e depoimentos que, no meu entender, pouco acrescentaram ao debate.
    Infelizmente, não foi devidamente aproveitada a “deixa” de um telespectador tentando associar o acaso à sincronicidade.
    Apenas você fez alguns comentários sob a ótica da física. Nenhum dos outros debatedores “pegou a deixa”.
    No meu modo de entender, o telespectador, com sua participação tentava introduzir nos debates o pensamento de Carl Jung sobre “coincidências” (no programa, casos de vários relatos de pessoas que se safaram de acidentes e creditaram ao destino estarem vivas).
    Jung considerava que muitas coincidências eram eventos “acausais” significativamente relacionados às condições psiquicas das pessoas. Não exisiriam por si mesmas. Elas seriam apenas “postuladas” pelo consciente.
    Nesse aspecto, o “destino” nunca poderia ser considerado como causa dos relatos feitos no programa.
    Também nesse aspecto, o “destino” não deve ter “guiado” ninguém a perder um ônibus, um avião, acidentados e coisas do gênero.
    Tal “destino” é apenas fruto do nosso inconsciente que relacionou o acidente à nossa ausência no ônibus, avião, etc. Eventos absolutamente entre si acausais.
    Esse destino não existe.

    • Concordo com voce. É interessante notar que a questão da “sincronicidade” no sentido não-relativistico (a própria sincronicidade é relativa mas envolve velocidades ~c – e eu pergunto qual evento no seu profundo fundamento não envolve interções életromagnéticas???) a sicronididade corriqueira envolve fatos como “estar na hora errada no lugar errado”, mas ela sempre nos levará a 2 possibilidades: (1) determinística (exemplo: quanta água evaporou?, qual o volume sobre a Região Serrana? com que velocidade se move a frente fria?… previsões que com minutos/horas/dias talvez?? de antecedencia pode-se determinar com altíssimo/alto/médio grau de certeza e (2) indeterminística (a mulher vai “decidir” segurar a corda e/ou o cachorro? quando? saberá dar o nó?). Entra sempre um pouco da Física Clássica sim (em 1)… mas bastante da quantica… fluxos eletronicos, fechamento de sinapses… (em 2).

  3. Veja que interessante como as ciências estão se aproximando.
    Estou relendo o livro “Tempo – O Profundo Mistério do Universo” de John Gribbin.
    O autor é astrofísico, membro da Unidade de Pesquisas Científicas da Universidade de Sussex.
    O livro é dividido em três partes: I – O tempo como um rio que passa, II – Distorções físicas do tempo e III – Tempo e mente, onde aborda sonhos telepáticos, sonhos precognitivos, vidas passadas e mundos futuros sob o foco da psicologia e da psiquiatria, baseado em experiências feitas na Inglaterra.

    Agora o ponto: na introdução da parte III, cita o livro “Synchronicity” de Carl Jung do qual extrai a seguinte definição:
    “Definí sincronicidade como uma relatividade psiquicamente condicionada do tempo e do espaço. As experiências de Rhine demonstram que em relação à psique o tempo e o espaço são, por assim dizer, ‘elásticos’ e aparentemente capazes de permitir redução quase ao ponto de fuga, como se dependessem de condições psiquicas e não existissem por si mesmo, mas fossem apenas ‘postulados’ pelo consciente. Na visão original que o homem tem do mundo, como a encontramos entre os primitivos, tempo e espaço têm existência muito precária. Eles só tornam conceitos ‘fixos’ no curso do desenvolvimento mental do homem, graças em grande parte à introdução da noção de medida”. (Synchronicity, edição Picador, paf. 28).

    Uma pergunta: isso é física quântica?

  4. Relendo meu comentário acima, a pergunta do fim do texto parece duvidar de sua afirmativa de que a sincronicidade tem mais a ver com a física quântica do que a física relativista. Não foi essa a intenção.
    A referência à fisica quântica é clara na última parte do texto de Jung ao afirmar que os conceitos de tempo e espaço têm existência precária e se tornaram conceitos fixos, em grande parte, à introdução da noção de medida. E isso para mim, é uma visão psiquica de um dos fundamentos da física quântica.

    • Léo te dou razão em vários de seus comentários. São muito pertinentes e, por estar com o tempo muito corrido nestes dias, gostaria de comentá-los mais detalhadamente quando voltar da viagem que realizo neste momento.

  5. Olá professor Aba e Léo.
    Primeiro gostaria de agradecer ao professor a participação no programa. Seguramente, fez a diferença.
    Léo Rugani, agradeço suas considerações – todas muito lúcidas e inteligentes. Aliás, é partir das críticas que vamos tentando corrigir falhas e manter os acertos.
    Sobre os depoimentos ao longo do pgm: a partir da linha do programa e perfil dos nossos telespectadores que vamos produzindo os vts. A proposta era tentar trazer alguns elementos para a discussão e reverberar no estúdio [na medida do tempo] exatamente para tentar desfazer alguns equívocos a respeito do conceito de destino. Infelizmente, nem sempre dá certo ou dá tempo de fazer isso. Mas acho bom ler e ouvir comentários dessa natureza para temas tão subjetivos e complexos como este.
    Quanto a sincronicidade, acho que rende um outro pgm. Anima dar a sua contribuição? Será um prazer.
    Abs e continue colaborando com suas palavras tão sábias.
    Cláudio – jornalista/produtor

    • Olá Cláudio -espero que o Léo nos leia; ele, que já me deu a honra de fazer o curso Einstein num passado recente, é especialista e autor de textos sobre as Teorias da Relatividade. Posto isto e, iniciando pelo próprio curso Einstein no Terceiro Milênio que você, Cláudio, também nos honrará como participante, discutimos entre vários assuntos a questão “o que é a REALIDADE?” – escrevi um post sobre o assunto (para ler vá no “search” e escreva “realidade e modelamento”): Os conceitos de sincronicidade e outros apresentados pelo Léo passam pela questão da percepção -que é algo tão importante para nós que David Hume chegou a propor idéias que resumimos como “o mundo real é o mundo que nós percebemos/construimos/imaginamos”. Quanto ao espaço e tempo de Jung, tanto (1) as Teorias da Relatividade (ambas) quanto (2) a Mecânica Quântica tratam da fusão dos 2 parâmetros tanto por (1) eles se fundem no espaço-tempo (um sendo fixo e o outro fluindo, quando estamos parados e invertendo os papeis quando aproximamos da velocidade da luz), quanto por (2) a realidade ser “não local”(uma interligação espacial -ATEMPORAL- de objetos situados alhures, um do outro. Vemos portanto que essa questão da sincronicidade é um pouco diferente da proposta de Jung. O assunto é realmente complexo e demanda maiores discussões.


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Categories

%d bloggers like this: